Pet vira passageiro VIP e transforma mercados além do setor pet
De carros com recursos de segurança e conforto a hotéis, voos e casas conectadas, empresas redesenham a experiência para incluir cães e gatos.
Cães e gatos deixaram de aparecer apenas como destinatários de rações, brinquedos e serviços veterinários. A presença dos animais na rotina doméstica passou a influenciar decisões sobre automóveis, viagens, hospedagem, tecnologia residencial e atendimento ao consumidor. Para empresas de diferentes setores, conquistar o tutor significa considerar também as necessidades do pet durante toda a jornada de compra e uso.
O movimento acompanha mudanças na composição dos lares brasileiros. Dados divulgados pelo IBGE em 2025 mostram que, pela primeira vez, menos da metade das famílias recenseadas era formada por casais com filhos. Entre as 72,3 milhões de unidades domésticas analisadas no Censo 2022, 13,6 milhões, ou 18,8%, eram ocupadas por uma única pessoa.
Esses números não medem diretamente a presença de animais nos domicílios e, isoladamente, não comprovam o crescimento das famílias multiespécie. Eles indicam, porém, a diversificação dos arranjos familiares, com mais pessoas vivendo sozinhas, casais sem filhos e núcleos domésticos que já não seguem um único padrão. É nesse ambiente que cães e gatos ganham espaço afetivo, participação na rotina e peso nas decisões de consumo.
A nova família amplia o papel econômico dos animais
O reconhecimento social dos animais como integrantes da vida familiar também começou a produzir respostas institucionais. Em 2025, o governo federal criou o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos e o Cadastro Nacional de Animais Domésticos. O decreto estabelece princípios como senciência, saúde, bem-estar e convivência harmoniosa entre animais e comunidade.
O SinPatinhas, sistema público de registro, reúne dados sobre cães, gatos e responsáveis para apoiar políticas de vacinação, castração, microchipagem e combate ao abandono. Em maio de 2025, mais de 620 mil animais já haviam sido cadastrados. O número não representa toda a população de pets do país, mas mostra a rápida adesão a uma ferramenta que individualiza o animal e o vincula formalmente ao tutor.
A dimensão econômica também permanece relevante. Segundo balanço da Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação, divulgado em documento disponível no Ministério da Agricultura, o mercado pet faturou R$ 77,96 bilhões em 2025, alta de 3,45% sobre 2024. Os alimentos responderam por 53,1% da receita, enquanto produtos e serviços veterinários somaram mais de R$ 16 bilhões.
A desaceleração do crescimento, após anos de expansão mais intensa, reforça a necessidade de diferenciação. A oportunidade deixa de estar apenas na venda de um item diretamente destinado ao animal e passa a incluir soluções capazes de facilitar a convivência: superfícies laváveis, monitoramento remoto, ambientes climatizados, transporte seguro, espaços de circulação e serviços adaptados.
Do porta-malas ao projeto completo do automóvel
A indústria automotiva oferece um dos exemplos mais visíveis dessa mudança. Apresentado em julho de 2026, o Peugeot E-5008 Dog Edition Concept foi desenvolvido em colaboração com o Stellantis Design Studio para investigar como seria um carro planejado a partir da percepção e das necessidades de um cão, e não apenas acrescido de acessórios depois de pronto.
O protótipo reúne materiais macios e antiderrapantes, cores inspiradas na visão canina, colchão modular, proteção interna, comedouros integrados, peitoral conectado e um secador para animais alimentado pela bateria do veículo. Também imagina uma navegação capaz de sugerir pontos de recarga próximos a parques e áreas de passeio.
Entre os recursos conceituais estão um modo de proteção que manteria a temperatura interna, permitiria acompanhamento remoto e enviaria alertas quando o animal permanecesse por pouco tempo no carro. Outra função emitiria um som específico para chamar um cão perdido e reconhecê-lo no retorno. A Peugeot ressalta, entretanto, que o Dog Edition é uma criação única e não está previsto para produção, funcionando como laboratório de design e mobilidade.
No caso da BYD, os materiais oficiais mais recentes consultados não apresentam uma inteligência artificial desenvolvida especificamente para evitar atropelamentos de animais. A montadora anunciou, em maio de 2026, uma nova geração do sistema de assistência ao motorista God’s Eye, com arquitetura de sensores, modelo de inteligência artificial e processador próprio voltados à prevenção de acidentes em diferentes cenários. A proposta é ampla e não deve ser descrita como uma função exclusiva para pets.
A evolução desses sistemas pode beneficiar animais, pedestres, ciclistas e outros elementos inesperados na via ao ampliar a capacidade de detectar obstáculos e reagir a riscos. Ainda assim, recursos eletrônicos não eliminam a responsabilidade do motorista nem substituem o transporte adequado. O Código de Trânsito Brasileiro proíbe levar animais nas partes externas do veículo e também prevê infração quando eles são conduzidos entre os braços ou as pernas do motorista.
Para o consumidor que viaja com um pet, a avaliação do automóvel passa a incluir fatores que antes tinham menor destaque: espaço para caixa de transporte, pontos de fixação, acesso ao porta-malas, ventilação, climatização, altura de entrada, revestimentos resistentes, facilidade de limpeza e separação segura entre o animal e o condutor. O pet, assim, interfere tanto na escolha do modelo quanto no desenvolvimento de acessórios e serviços pós-venda.
Turismo, aviação e tecnologia já respondem à demanda
O impacto também aparece no transporte aéreo. A Azul informou ter levado 70,2 mil cães e gatos nas cabines de suas aeronaves durante 2025. A companhia atribuiu o resultado à procura por uma viagem em que o animal permaneça próximo ao tutor, dentro dos limites de peso, documentação e caixa de transporte definidos para o serviço.
Azul, GOL e LATAM mantêm serviços específicos para cães e gatos em cabine, com critérios próprios de idade, tamanho, acondicionamento e reserva. Essa operação exige adaptações no sistema de vendas, no atendimento dos aeroportos, na definição de lugares, na comunicação com passageiros e na preparação das equipes, mostrando como o pet altera processos de uma empresa cuja atividade principal não pertence ao mercado animal.
Em julho de 2026, o Ministério do Turismo realizou um mapeamento nacional com tutores, hotéis, pousadas, bares, restaurantes e atrativos. Os dados deverão servir de base para o primeiro manual brasileiro de boas práticas do turismo pet friendly, com orientações destinadas a tornar viagens e destinos mais seguros, confortáveis e padronizados.
A hotelaria já trata a aceitação de animais como atributo de escolha da hospedagem. Redes como a Accor mantêm páginas e filtros específicos para estabelecimentos pet friendly, além de orientações sobre regras, estrutura e serviços. Nesse mercado, permitir a entrada do animal é apenas o primeiro passo: a experiência pode envolver pisos adequados, áreas externas, kits de recepção, protocolos de limpeza e informações claras sobre circulação.
Dentro de casa, a mesma lógica alcança eletrodomésticos e plataformas digitais. Em atualização anunciada em abril de 2026, a Samsung integrou recursos de Pet Care ao serviço de informações personalizadas do SmartThings, permitindo consultar dados relacionados à rotina doméstica e aos passeios do cão em celulares, televisores e geladeiras conectadas compatíveis.
Máquinas de lavar com ciclos para remoção de pelos, aspiradores capazes de reconhecer objetos no chão, purificadores de ar, câmeras e controles remotos de temperatura ilustram uma nova categoria de solução: o produto continua destinado ao lar, ao transporte ou à viagem, mas passa a ser projetado para uma residência em que humanos e animais compartilham espaços e equipamentos.
Uma oportunidade que exige mais do que comunicação
Para as empresas, a inclusão do pet pode aumentar a relevância do produto, gerar serviços adicionais e fortalecer a fidelização. A estratégia, contudo, precisa ultrapassar campanhas com imagens de cães e gatos. Um posicionamento consistente depende de segurança, treinamento das equipes, materiais adequados, regras transparentes e capacidade de atender diferentes portes, espécies e perfis de comportamento.
Há ainda limites importantes. Um automóvel climatizado não torna seguro deixar um animal sozinho por períodos prolongados; uma hospedagem que aceita pets não é necessariamente preparada para recebê-los; e um serviço de transporte deve considerar saúde, ventilação, contenção e documentação. A expansão do mercado precisa ser acompanhada por critérios técnicos e responsabilidade sobre o bem-estar animal.
O avanço das famílias multiespécie está, portanto, redesenhando a experiência do consumidor para além das lojas especializadas. O pet participa da escolha do carro, do destino, do hotel, do voo e das tecnologias instaladas em casa. Para diferentes indústrias, compreender essa realidade significa reconhecer que o cliente já não decide apenas por si: em muitos lares, a experiência só é considerada completa quando também funciona para o passageiro de quatro patas.
Veja também: