PIF em gatos: novos tratamentos transformam prognóstico da doença
Veterinária explica como reconhecer a PIF, por que o diagnóstico exige cautela e de que forma antivirais ampliaram as chances de recuperação dos gatos.
A peritonite infecciosa felina, conhecida como PIF, é uma doença inflamatória grave associada ao coronavírus felino. Durante muitos anos, o diagnóstico esteve relacionado a um prognóstico extremamente desfavorável, mas o avanço dos antivirais mudou de forma importante esse cenário. Atualmente, gatos diagnosticados e tratados adequadamente podem apresentar boas respostas e alcançar recuperação clínica.
Para esclarecer as principais dúvidas dos tutores, a reportagem ouviu a Dra. Angélica Lang Klaussner, médica-veterinária da Clínica Bigodinhos, na Vila Clementino, em São Paulo, e parceira do Adote um Gatinho. A veterinária atua junto à ONG no acompanhamento da saúde dos animais resgatados e adotados. O trabalho da organização também pode ser acompanhado pelo @adoteumgatinho.
A mudança no tratamento não torna a PIF uma doença simples. O diagnóstico continua exigindo investigação cuidadosa, e a escolha do protocolo terapêutico deve ser feita pelo médico-veterinário. Sinais clínicos, exames laboratoriais, métodos de imagem e, em determinados casos, análise de líquidos ou tecidos precisam ser avaliados em conjunto.
Coronavírus felino é comum, mas poucos gatos desenvolvem PIF
O coronavírus felino, conhecido pela sigla FCoV, é relativamente comum, principalmente em locais onde vivem vários gatos. Ele pode circular por meio da via fecal-oral, inclusive pelo contato com caixas de areia e ambientes contaminados. Muitos animais infectados não apresentam sinais importantes e jamais desenvolvem PIF.
Na apresentação clássica da doença, o coronavírus sofre alterações dentro do organismo de uma parcela dos gatos infectados e passa a provocar uma resposta inflamatória sistêmica. Por isso, é importante diferenciar a transmissão do coronavírus felino do desenvolvimento da PIF propriamente dita.
A predisposição individual também participa desse processo. A genética do hospedeiro é estudada como um dos possíveis fatores de suscetibilidade, ao lado da resposta imunológica, das características do vírus, da idade, do ambiente e de outros elementos.
O coronavírus felino não é o mesmo vírus responsável pela Covid-19. As formas de coronavírus tradicionalmente associadas à PIF são adaptadas aos felinos e não são consideradas um risco de transmissão para pessoas.
Sinais variados tornam o diagnóstico um dos principais desafios
Febre persistente, perda de peso, redução do apetite e apatia estão entre os sinais que podem aparecer em gatos com PIF. Alguns animais apresentam acúmulo de líquido no abdômen ou no tórax, enquanto outros desenvolvem alterações nos olhos ou manifestações neurológicas.
Esses sinais não são exclusivos da doença. Diversas condições podem provocar febre, emagrecimento, alterações sanguíneas ou acúmulo de líquidos. Por isso, a suspeita de PIF não deve ser confirmada ou descartada apenas com base em uma manifestação clínica ou em um exame isolado.
O diagnóstico pode exigir a combinação do histórico do gato, exame físico, hemograma, avaliações bioquímicas e exames de imagem, como ultrassonografia. Quando há líquido no abdômen ou no tórax, a análise de uma amostra pode fornecer informações importantes para aumentar ou diminuir a suspeita.
Testes destinados a detectar o coronavírus também precisam ser interpretados com cuidado. Como muitos gatos entram em contato com o FCoV sem desenvolver PIF, um resultado que apenas demonstra exposição ou eliminação do coronavírus não é suficiente, sozinho, para confirmar a doença.
Antivirais mudaram uma doença antes considerada quase fatal
O tratamento da PIF passou por uma transformação relevante nos últimos anos. Antivirais como o GS-441524 e o remdesivir mudaram o prognóstico de uma doença que anteriormente era considerada quase invariavelmente fatal.
O GS-441524 é atualmente um dos antivirais mais estudados para PIF. O remdesivir também pode ser utilizado em determinadas situações, dependendo da disponibilidade, da regulamentação e da avaliação do médico-veterinário responsável pelo caso.
Historicamente, grande parte dos protocolos utilizou 84 dias de tratamento. Estudos mais recentes, porém, avaliam tratamentos de 42 dias em determinados pacientes. A duração deve ser definida individualmente e não deve ser reduzida ou interrompida sem acompanhamento profissional.
Após o término do tratamento, o acompanhamento continua importante para identificar possíveis recidivas. Peso, apetite, comportamento, temperatura e resultados de exames laboratoriais podem ser utilizados pelo veterinário para avaliar a recuperação do paciente.
Além do antiviral, alguns gatos necessitam de tratamento de suporte, como controle de náusea, suporte nutricional, estímulo do apetite e outros cuidados definidos conforme o quadro clínico. Animais muito debilitados podem necessitar de internação e acompanhamento intensivo.
A procedência dos medicamentos também merece atenção. Formulações sem controle de qualidade podem apresentar concentrações diferentes das declaradas, dificultando a definição da dose e aumentando riscos. Por isso, a decisão sobre medicamento, duração, dose e monitoramento deve ser tomada com o médico-veterinário responsável.
Entrevista | PIF: da doença mais temida pelos tutores às novas perspectivas de tratamento
Entrevistada: Dra. Angélica Lang Klaussner, médica-veterinária da Clínica Bigodinhos (Vila Clementino) e parceira do Adote um Gatinho. A ONG também está no Instagram como @adoteumgatinho.
1. Para começar, o que é a Peritonite Infecciosa Felina (PIF)? O que todo tutor precisa saber sobre a doença?
A PIF (Peritonite Infecciosa Felina) é uma doença causada pelo coronavírus entérico felino (FCoV). Apesar do nome, hoje sabemos que o vírus não provoca apenas inflamação no peritônio, podendo acometer diferentes órgãos e sistemas do organismo.
O coronavírus felino é um vírus extremamente comum entre os gatos e, na maioria das vezes, não causa grandes problemas. Apenas alguns animais possuem características individuais que permitem que esse vírus sofra uma mutação e se transforme na forma responsável pela PIF.
É importante esclarecer que a PIF não é transmitida entre os gatos. O que é transmitido é o coronavírus entérico felino. Cada gato infectado pode ou não desenvolver a mutação que leva à doença. A PIF também não é transmitida para pessoas nem para outras espécies de animais.
2. O coronavírus felino (FCoV) é muito comum entre os gatos, mas apenas uma pequena parcela dos animais infectados desenvolve PIF. Por que isso acontece? Quais fatores aumentam a probabilidade de evolução para a doença?
A contaminação ocorre pelo contato com gatos portadores do coronavírus felino. Muitos animais são apenas portadores e eliminam o vírus pelas fezes durante algum período da vida, sem nunca desenvolver a doença.
A mutação que dá origem à PIF acontece apenas quando o gato possui uma característica genética específica, uma molécula capaz de se ligar ao vírus e favorecer essa transformação.
Por isso, nem todo gato infectado pelo coronavírus desenvolverá PIF. Muitos convivem normalmente com o vírus durante toda a vida sem apresentar qualquer sinal clínico.
3. Existem formas de reduzir esse risco? Quais cuidados no dia a dia podem ajudar a diminuir as chances de um gato desenvolver PIF?
Como a maioria dos gatos entra em contato com o coronavírus ao longo da vida, o mais importante é reduzir os fatores que favorecem sua disseminação e manter o organismo do animal saudável.
Boas práticas de manejo, ambiente limpo, controle sanitário, redução do estresse, alimentação de qualidade e acompanhamento veterinário ajudam a preservar a saúde dos gatos e contribuem para diminuir os riscos relacionados à doença.
4. A PIF pode se apresentar de diferentes maneiras, sendo as formas “úmida” (efusiva) e “seca” (não efusiva) as mais conhecidas. Quais são as principais diferenças entre elas e quais sinais costumam chamar a atenção dos tutores?
A PIF pode se manifestar de duas formas principais: a forma seca (não efusiva) e a forma úmida (efusiva).
A apresentação da doença depende da localização do vírus e da forma como ele desencadeia o processo inflamatório. Essa inflamação pode atingir diversos órgãos ou ficar concentrada em um determinado local.
Existe também a PIF neurológica, considerada uma manifestação da forma seca, mas que provoca sinais neurológicos específicos.
Cada paciente pode apresentar sintomas diferentes, justamente porque a doença pode acometer diferentes partes do organismo.
5. Durante muitos anos, receber o diagnóstico de PIF era praticamente uma sentença de morte. Felizmente, esse cenário mudou. O que aconteceu nos últimos anos para transformar o prognóstico da doença e quais são hoje as principais opções de tratamento disponíveis no Brasil?
Há alguns anos, receber o diagnóstico de PIF praticamente significava uma sentença de morte. Mesmo com todos os cuidados, a maioria dos casos evoluía para o óbito.
Hoje, essa realidade mudou completamente. Passamos a contar com tratamentos específicos e medicamentos que apresentam excelentes resultados. Além disso, o custo desses medicamentos diminuiu bastante. Ainda é um tratamento caro, mas os valores são muito mais acessíveis do que eram no início.
O tratamento deve sempre ser indicado e acompanhado por um médico-veterinário. Tradicionalmente, ele durava 84 dias, mas pesquisas mais recentes já avaliam protocolos de 42 dias para alguns casos.
Durante todo esse período, o gato permanece sob acompanhamento veterinário. Após a conclusão do tratamento, se permanecer mais 30 dias sem apresentar retorno dos sintomas, sem recidiva, ele é considerado curado da PIF.
6. Apesar dos avanços, o tratamento ainda representa um desafio para muitas famílias, principalmente pelo custo elevado e pelas questões regulatórias envolvendo alguns medicamentos. Existe uma perspectiva de que esse tratamento se torne mais acessível nos próximos anos?
O cenário já melhorou bastante em comparação aos primeiros anos de utilização desses medicamentos. Os custos diminuíram significativamente e hoje existem mais alternativas terapêuticas disponíveis.
Embora o tratamento ainda represente um investimento importante para muitas famílias, a tendência é que ele se torne cada vez mais acessível à medida que novos estudos sejam concluídos e mais opções estejam disponíveis no mercado.
Independentemente do medicamento utilizado, todo tratamento deve ser realizado com acompanhamento veterinário.
7. Após o diagnóstico, uma das maiores dúvidas dos tutores é sobre a convivência com outros gatos. Quando é seguro introduzir um novo gato em casa ou permitir que ele conviva com outros felinos? Existe algum protocolo recomendado?
O gato com PIF já manifesta a doença, mas o que ele elimina no ambiente é o coronavírus felino, e não a PIF propriamente dita.
Se outros gatos nunca tiveram contato com esse vírus, existe a possibilidade de eles se infectarem pelo coronavírus felino. Porém, se os animais já convivem no mesmo ambiente há mais de três meses, normalmente não há necessidade de separação, pois essa exposição provavelmente já ocorreu anteriormente.
Cada situação deve ser avaliada individualmente pelo médico-veterinário responsável.
8. A equipe do Adote um Gatinho acompanha casos de PIF há muitos anos. Na prática, quais foram as maiores mudanças que vocês observaram desde o surgimento dos novos tratamentos? Como é ver gatos que antes tinham poucas chances hoje recuperando a qualidade de vida e encontrando uma família?
Essa pergunta não foi respondida na transcrição encaminhada.
9. Existe algum aspecto sobre a PIF que vocês consideram essencial e que não perguntamos, mas gostariam de compartilhar com os leitores do PetBR?
O mais importante é que o tutor saiba que a PIF deixou de ser, obrigatoriamente, uma sentença de morte.
Hoje existem tratamentos eficazes, com índices de sucesso cada vez maiores quando o diagnóstico é realizado precocemente e o acompanhamento veterinário é seguido corretamente.
Por isso, diante de qualquer suspeita, é fundamental procurar atendimento especializado o quanto antes. O diagnóstico precoce continua sendo um dos principais aliados para aumentar as chances de sucesso no tratamento.
10. Aproveitando nossa conversa sobre doenças que preocupam os tutores de gatos, existe algum outro tema que você considera importante destacar?
Dra. Angélica: Aproveitando a oportunidade, não podemos deixar de falar sobre a esporotricose, que é uma zoonose e desperta muita preocupação entre os tutores.
Durante muito tempo, acreditava-se que a doença estava concentrada apenas no Rio de Janeiro, mas hoje ela já está bastante disseminada em São Paulo. Inclusive, já existem registros de animais silvestres diagnosticados com a doença.
A esporotricose é causada pelo fungo Sporothrix. Antigamente, era conhecida como a “doença do jardineiro”, porque o fungo está presente no solo, em troncos de árvores, folhas em decomposição e outros materiais orgânicos. Como os gatos têm o hábito de cavar e explorar esses ambientes, podem acabar se contaminando.
Por ser uma zoonose, muitas pessoas ficam assustadas ao receber o diagnóstico. No entanto, é importante destacar que hoje contamos com tratamentos bastante eficazes e com altas taxas de cura.
Quanto mais cedo o tratamento for iniciado, melhores são as chances de recuperação. Entre os principais sinais de alerta estão feridas que não cicatrizam, lesões extensas pelo corpo e, principalmente, na região da face. Como os gatos costumam se lamber com frequência, podem acabar espalhando essas lesões para outras partes do corpo.
O tratamento é longo e exige acompanhamento veterinário, mas não deve ser motivo para desespero. Após o diagnóstico, é fundamental iniciar o tratamento o quanto antes, impedir que o gato tenha acesso à rua, evitar o contato com outros animais e utilizar luvas sempre que for manipular o paciente, reduzindo o risco de transmissão.
A informação e o diagnóstico precoce continuam sendo as melhores ferramentas para proteger tanto os animais quanto as pessoas.
Informação ajuda a substituir medo por acompanhamento veterinário
Os avanços no conhecimento sobre a PIF transformaram a perspectiva para gatos e tutores. A doença continua sendo grave e exige diagnóstico criterioso, tratamento orientado e acompanhamento próximo, mas a existência de antivirais eficazes tornou possível falar em recuperação em um número expressivo de casos.
A experiência de profissionais que acompanham a rotina de resgate e atendimento de gatos também ajuda a aproximar essas informações dos tutores. A Dra. Angélica Lang Klaussner, da Clínica Bigodinhos, atua em parceria com o Adote um Gatinho, organização dedicada ao resgate, tratamento e adoção responsável de felinos. Mais informações sobre o trabalho da ONG estão disponíveis no site do Adote um Gatinho e no perfil @adoteumgatinho.
Uma suspeita de PIF ainda costuma provocar medo, mas o cenário atual é muito diferente daquele de poucos anos atrás. Diante de sinais compatíveis com a doença, o caminho mais seguro é buscar avaliação veterinária o quanto antes, confirmar o diagnóstico e discutir as opções terapêuticas adequadas ao caso. Informação correta e atendimento especializado passaram a ocupar um papel central em uma doença cujo prognóstico mudou profundamente com os avanços da medicina felina.
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