Resgate animal em desastres exige preparo antes da emergência
Lei sancionada em 2026 inclui animais no planejamento de emergências; experiência do GRAD mostra por que resposta técnica começa antes da crise.
Enchentes, incêndios e deslizamentos também atingem animais domésticos, de produção e silvestres, mas salvá-los não se resume a boa vontade. A resposta exige comando, equipe capacitada, equipamentos, triagem, transporte, abrigo e destinação. Em 2026, uma nova lei nacional tornou esse planejamento dever público; o desafio agora é fazer a estrutura existir antes da próxima emergência.
O Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres é celebrado em 13 de outubro. O tema anunciado pela Organização das Nações Unidas para 2026, “A resiliência começa em casa”, reforça a preparação dos lares sem retirar do poder público a responsabilidade por alertas, prevenção e planos acessíveis.
No Brasil, a Lei nº 15.355, de 11 de março de 2026, instituiu a Política de Acolhimento e Manejo de Animais Resgatados, a Política Amar. A norma integra proteção, resgate, acolhimento e manejo animal às políticas de defesa civil e distribui atribuições entre União, estados, municípios, empreendedores e sociedade civil.
Da iniciativa voluntária à resposta especializada
O Grupo de Resposta a Animais em Desastres, o GRAD Brasil, ajuda a mostrar como essa atuação se tornou técnica. Sua origem remonta às enchentes e aos deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, quando três médicos-veterinários seguiram para Nova Friburgo e montaram uma estrutura de triagem, ambulatório, cirurgia e abrigo.
Com o tempo, o grupo ampliou o foco do resgate imediato para a assistência a famílias multiespécies antes, durante e depois das crises. Seu histórico institucional reúne operações em inundações, rompimentos de barragens, incêndios florestais, evacuações preventivas e atendimento em comunidades isoladas. A variedade revela que cada cenário pede riscos e técnicas diferentes.
Retirar um cão de uma casa alagada, manejar bovinos em área evacuada e atender fauna queimada não são tarefas intercambiáveis. Correnteza, estruturas instáveis, fumaça, eletricidade, produtos químicos e animais assustados ameaçam vítimas e socorristas. Entrar sem integração ao comando da operação pode gerar um novo resgate, comprometer rotas e consumir recursos escassos.
A experiência de equipes como o GRAD indica uma sequência que começa antes do acesso ao animal: leitura do cenário, identificação de perigos, definição de comando, comunicação, uso de proteção individual e escolha de equipamentos. Depois vêm captura, estabilização, identificação, registro, transporte, triagem clínica e encaminhamento.
A lei muda o ponto de partida
A Política Amar determina que municípios incorporem proteção, resgate, acolhimento e manejo animal a seus planos de contingência de proteção e defesa civil. Também prevê capacitação de recursos humanos e evacuação preventiva de animais em áreas de alto risco. Assim, a presença dos animais deixa de depender apenas de uma mobilização iniciada durante a calamidade.
A lei estabelece que o resgate seja feito por equipe capacitada, sob coordenação de profissional habilitado e com técnicas adequadas à espécie e ao porte. A prioridade das vidas humanas permanece expressa na norma. Incluir animais no plano ajuda justamente a reduzir conflitos, recusas de evacuação e improvisos que também expõem pessoas.
Há diferença entre previsão legal e capacidade local. Um plano só funciona se mapear quantos e quais animais vivem nas áreas vulneráveis, definir transporte e locais de acolhimento, prever alimento, água, medicamentos, manejo de resíduos, biossegurança e equipes de revezamento. Simulados e acordos prévios com clínicas, universidades, produtores e organizações civis testam o que está no papel.
O registro também é decisivo. Fotografias, localização do resgate, espécie, características, identificação eletrônica e destino reduzem perdas e favorecem a reunião com as famílias. Abrigos temporários precisam separar animais por espécie, condição clínica e comportamento, controlar entrada e saída e evitar reprodução, fuga e transmissão de doenças.
Preparação começa nas famílias multiespécies
Moradores de áreas sujeitas a risco devem conhecer alertas oficiais e rotas de saída. Cada animal precisa ter forma de contenção disponível: caixa de transporte para gatos e pequenos pets; guia, peitoral ou coleira bem ajustada para cães; e planejamento especializado para animais de grande porte. Tentar improvisar esses recursos durante uma evacuação custa tempo.
Uma bolsa de emergência pode reunir água, alimento, recipientes, medicações de uso contínuo, cópias de receitas, carteira de vacinação, itens de higiene e fotografia recente. Plaqueta e microchip aumentam as possibilidades de identificação, desde que os dados estejam atualizados. O tutor deve treinar a entrada calma na caixa de transporte ao longo do ano.
O plano familiar também precisa considerar quem retirará os animais se os responsáveis estiverem fora, onde todos poderão ficar e quais abrigos aceitam pets. Pessoas idosas, com deficiência ou sem veículo podem precisar de apoio antecipado. Preparação comunitária é mais eficaz quando essas barreiras são identificadas antes do alerta.
Clima amplia a urgência do debate
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas aponta que a influência humana aumentou a probabilidade de eventos extremos combinados e que chuvas intensas e inundações associadas tendem a se agravar em várias regiões. Desastres, porém, resultam também da exposição, da ocupação vulnerável e da falta de preparo; o evento climático não explica sozinho a dimensão das perdas.
O novo marco brasileiro oferece base para substituir respostas isoladas por uma rede permanente. A contribuição do GRAD está em demonstrar que competência técnica, logística e atenção às famílias multiespécies podem ser organizadas. Transformar esse aprendizado em capacidade pública distribuída é o passo necessário para que o resgate não dependa da chegada de poucos especialistas.
Reduzir risco significa agir quando sirenes ainda não tocaram: mapear, capacitar, equipar, pactuar responsabilidades e informar a população. Quando o desastre acontece, cada decisão já prevista protege animais, tutores e equipes. A pergunta mais útil deixa de ser quem aparecerá para salvar e passa a ser quem está preparado para responder em conjunto.
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