Castração de cães e gatos: entenda prós, contras e hora certa
Procedimento previne doenças graves e reduz abandono, mas exige avaliação individual, entenda o que considerar antes de decidir pela cirurgia
O Brasil tem cerca de 149,6 milhões de animais de estimação. Ao mesmo tempo, aproximadamente 30 milhões de cães e gatos vivem em situação de abandono no país. Só em 2023, quase 185 mil animais estavam sob tutela de ONGs após resgates de abandono ou maus tratos. A castração é considerada pela medicina veterinária a principal ferramenta para conter essa crise.
O procedimento é seguro, rotineiro e vai além de evitar ninhadas indesejadas. Ele previne doenças graves, pode melhorar o comportamento e aumentar a expectativa de vida. Ainda assim, a decisão deve considerar raça, porte, sexo e estilo de vida do animal. A avaliação individual com um veterinário é indispensável.
Benefícios comprovados para a saúde
Os benefícios da castração são amplamente documentados.
Nas fêmeas, quando realizada antes do primeiro cio, a cirurgia reduz de forma expressiva o risco de câncer de mama, a neoplasia mais frequente em cadelas. Se feita entre o primeiro e o segundo cio, a proteção continua elevada, embora menor. Após o segundo cio, a redução do risco ainda existe, mas é mais limitada. A castração também elimina a possibilidade de piometra, infecção uterina potencialmente fatal, além de prevenir gravidez psicológica e outras alterações hormonais.
Nos machos, o procedimento previne tumores testiculares e diminui significativamente problemas prostáticos, comuns em cães idosos não castrados. Há ainda indícios de benefício no controle de algumas doenças associadas a alterações hormonais.
Mudanças no comportamento
Após a castração, muitos tutores percebem melhora na convivência doméstica. Machos tendem a reduzir a marcação de território com urina, as fugas em busca de fêmeas no cio, a agressividade com outros animais e vocalizações excessivas.
É importante manter expectativas realistas. A cirurgia não altera a personalidade do pet. Comportamentos ligados à falta de socialização, ansiedade ou traumas exigem manejo comportamental específico, e não apenas intervenção cirúrgica.
Riscos que merecem atenção
Apesar dos benefícios, a castração não é isenta de riscos.
Estudos recentes indicam que a realização muito precoce da cirurgia pode aumentar a chance de problemas ortopédicos, como displasia de quadril e ruptura de ligamentos, especialmente em cães de grande porte. Pesquisas de longo prazo também apontam aumento de risco de determinados tipos de câncer em machos de raças grandes castrados antes de um ano de idade.
Outro ponto relevante é a incontinência urinária em cadelas, que pode ocorrer principalmente quando a cirurgia é feita muito cedo, devido à queda nos níveis de estrogênio. Esses dados reforçam que não existe uma regra única. Cada animal deve ser avaliado individualmente.
Castração e obesidade, mito ou verdade?
A castração pode contribuir para o ganho de peso, mas não é uma consequência inevitável.
A cirurgia altera o metabolismo de cães e gatos, facilitando o acúmulo de gordura. Animais castrados apresentam risco maior de obesidade, sobretudo machos e raças de pequeno porte. No entanto, o controle das porções, o uso de rações específicas para castrados e a prática regular de exercícios são suficientes para manter o peso adequado. Orientação nutricional profissional é recomendada.
Quando castrar, a idade ideal
A definição da idade ideal depende do porte e da espécie.
Para cães de pequeno e médio porte, a recomendação mais comum é entre 6 meses e 1 ano de idade. Em cães de grande porte, costuma-se indicar a cirurgia entre 1 e 2 anos, após o término do crescimento, para reduzir riscos ortopédicos.
Nos gatos, machos podem ser castrados a partir dos 6 meses, e em alguns casos um pouco antes, se já houver marcação territorial. Fêmeas costumam ser operadas entre 6 e 12 meses, preferencialmente antes do primeiro cio. Em todos os casos, exames pré operatórios são fundamentais.
Como acessar a castração no Brasil
O acesso ao procedimento tem avançado com programas públicos de controle reprodutivo em diversas cidades e estados. Milhares de cirurgias são realizadas anualmente por meio de clínicas conveniadas e unidades móveis.
Na rede particular, os valores variam conforme porte e sexo do animal. Em gatos, os custos costumam ser menores que em cães. Em cadelas e fêmeas de grande porte, os valores podem ser mais elevados devido à complexidade do procedimento.
Cuidados no pré e no pós operatório
Antes da cirurgia, o animal deve passar por consulta clínica e exames para confirmar que está apto ao procedimento. O jejum alimentar geralmente é de 12 horas, e o hídrico, de cerca de 6 horas, conforme orientação veterinária.
No pós operatório, é essencial manter o ambiente calmo e restringir atividades intensas por 10 a 14 dias. O uso de colar elizabetano ou roupa cirúrgica impede que o pet lamba os pontos. Banhos devem ser evitados até a retirada da sutura, que costuma ocorrer entre 7 e 10 dias. Sinais como inchaço excessivo, secreção ou febre exigem contato imediato com o veterinário.
Mitos que ainda afastam tutores
Um dos mitos mais comuns é a crença de que a fêmea precisa ter ao menos uma cria antes da castração. Não há benefício comprovado nessa prática, e cada cio adicional aumenta a exposição ao risco de tumores mamários.
Também é incorreta a ideia de que o animal ficará triste ou sem energia após a cirurgia. O que ocorre é redução dos impulsos hormonais ligados à reprodução, o que pode resultar em comportamento mais tranquilo, sem prejuízo da qualidade de vida. Com alimentação adequada e atividade física, a castração não implica, por si só, em obesidade.
Informação de qualidade e orientação veterinária continuam sendo as melhores ferramentas para uma decisão responsável e segura.
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