Auxiliar de veterinário ganha destaque em mercado pet em expansão
Profissional essencial na rotina de clínicas e hospitais veterinários ainda enfrenta baixa valorização, salários modestos e pouca visibilidade no setor pet
O crescimento acelerado do mercado pet no Brasil colocou clínicas, hospitais veterinários e grandes redes de serviços para animais no centro de um setor que movimenta bilhões por ano. No entanto, por trás do funcionamento diário dessas estruturas, um profissional permanece pouco reconhecido pelo público: o auxiliar de veterinário. Presente em praticamente todas as etapas do atendimento, ele exerce funções fundamentais para garantir organização, segurança e bem-estar dos pacientes.
Na prática cotidiana das clínicas, é comum que o auxiliar seja o primeiro profissional a entrar em contato com o animal e com o tutor. Cabe a ele organizar o fluxo de atendimento, preparar salas e equipamentos, conferir materiais e auxiliar na contenção segura do paciente durante procedimentos. Também participa da coleta de informações iniciais, monitoramento de sinais vitais e apoio direto ao médico-veterinário durante consultas, exames e internações.
Reconhecimento formal, mas sem regulamentação
No Brasil, a função é reconhecida pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 5193-05), que inclui o auxiliar de veterinário entre os trabalhadores ligados aos serviços veterinários e ao cuidado com animais domésticos. Esse reconhecimento permite a contratação formal com carteira assinada, mas a ocupação ainda não possui uma regulamentação específica em lei federal, o que gera lacunas na definição de direitos, responsabilidades e padrões de formação.
Para reduzir riscos e garantir segurança no atendimento, resoluções do Conselho Federal de Medicina Veterinária e de conselhos regionais estabelecem limites claros para a atuação desses profissionais. De acordo com as normas, o auxiliar deve sempre trabalhar sob orientação e supervisão direta de um médico-veterinário, sem realizar atividades privativas da profissão, como diagnóstico clínico, prescrição de medicamentos ou procedimentos cirúrgicos.
Apesar dessas diretrizes, a realidade do mercado ainda apresenta distorções. Em algumas clínicas, a escassez de equipes ou a tentativa de reduzir custos leva auxiliares a assumir responsabilidades que extrapolam suas atribuições legais. Essa situação aumenta a pressão sobre trabalhadores que, muitas vezes, recebem treinamento limitado e enfrentam condições de trabalho desafiadoras.
Salários modestos e rotinas intensas
Estudos salariais e dados do mercado de trabalho indicam que a remuneração média do auxiliar de veterinário no Brasil costuma variar entre um e dois salários mínimos, dependendo da região e do porte da clínica. As jornadas semanais geralmente ficam entre 40 e 44 horas, podendo incluir plantões noturnos, finais de semana e feriados, especialmente em hospitais veterinários com atendimento 24 horas.
Estados com forte concentração de serviços veterinários, como São Paulo, apresentam salários ligeiramente superiores devido a convenções coletivas e maior demanda por mão de obra. Ainda assim, especialistas apontam que os valores permanecem abaixo do esperado para uma atividade que envolve risco biológico, contato com medicamentos, exposição a zoonoses e uma rotina emocionalmente exigente.
Além da carga física, a dimensão emocional do trabalho também pesa. Auxiliares participam do acompanhamento de animais em estado grave, lidam com situações de emergência e frequentemente presenciam momentos difíceis para tutores, como perdas ou decisões sobre eutanásia. Em muitos casos, são eles que oferecem o primeiro apoio aos responsáveis, ao mesmo tempo em que precisam manter precisão técnica e seguir protocolos de biossegurança.
Perfil jovem e predominantemente feminino
Outro aspecto marcante da categoria é seu perfil demográfico. A maior parte dos auxiliares de veterinário no país é composta por mulheres jovens com ensino médio completo, muitas vezes em início de carreira. A função costuma ser porta de entrada para quem deseja trabalhar na área de saúde animal, seja em clínicas, hospitais veterinários ou estabelecimentos ligados ao setor pet.
Pesquisadores do mercado de trabalho apontam que essa predominância feminina também contribui para a invisibilização da ocupação. Atividades associadas ao cuidado e ao suporte técnico historicamente tendem a receber menor reconhecimento social e remuneração mais baixa, mesmo quando exigem qualificação específica e grande responsabilidade.
Demanda crescente e busca por valorização
Nos últimos anos, o aumento do número de animais de estimação nos lares brasileiros ampliou a demanda por serviços veterinários e, consequentemente, por profissionais de apoio nas equipes clínicas. O auxiliar tornou-se peça central na logística do atendimento, participando da organização de prontuários, controle de estoques de medicamentos, higienização de ambientes e monitoramento de animais em recuperação.
Diante desse cenário, entidades da área e especialistas em relações de trabalho defendem avanços estruturais para a categoria. Entre as propostas estão a regulamentação nacional da profissão, definição clara de atribuições, criação de pisos salariais mais compatíveis com o risco da atividade e incentivo à formação técnica específica, com cursos que abordem anatomia, contenção animal, biossegurança, zoonoses e bem-estar.
Para profissionais do setor, reconhecer o papel do auxiliar de veterinário é também uma forma de melhorar a qualidade do atendimento prestado aos animais. Equipes estáveis, bem treinadas e valorizadas tendem a oferecer assistência mais segura e eficiente. Em um país que possui um dos maiores mercados pet do mundo, tornar visível o trabalho desses profissionais passa a ser parte essencial da construção de um sistema de saúde animal mais sólido e humanizado.
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