Gasto com pets cresce e vira conta fixa no orçamento familiar
Setor pet faturou R$ 77,96 bilhões em 2025, mas avanço menor mostra pressão de custos sobre tutores e empresas e consumo mais cauteloso no Brasil.
O brasileiro está gastando mais com animais de estimação, mas esse avanço precisa ser lido com cautela. O mercado pet fechou 2025 com faturamento de R$ 77,96 bilhões, alta de 3,45% sobre o ano anterior, segundo dados setoriais da Abempet. O resultado confirma a força do segmento, mas também mostra perda de ritmo depois de anos de expansão mais acelerada.
Na prática, o pet deixou de ser uma despesa eventual e passou a ocupar espaço fixo no orçamento de muitas famílias. A conta não se limita a brinquedos, acessórios ou produtos considerados supérfluos. Ela envolve, sobretudo, ração, consultas veterinárias, vacinas, medicamentos, higiene, banho e tosa, além de compras recorrentes feitas em pet shops, clínicas e canais digitais.
Em 2024, o setor já havia movimentado R$ 75,4 bilhões, com crescimento de 9,6% em relação a 2023. Ainda assim, o avanço mais recente foi bem menor. A desaceleração reforça um ponto central para entender o mercado: o faturamento continua subindo em valores correntes, mas isso não significa, necessariamente, que as famílias estejam comprando mais produtos em volume.
Ração continua sendo o principal gasto
A alimentação é o centro da despesa pet no Brasil. Em 2025, a venda de alimentos industrializados para animais de estimação somou R$ 41,42 bilhões, o equivalente a 53,1% do faturamento do setor. Em 2024, o pet food já havia respondido por R$ 40,8 bilhões, ou 54,1% do mercado.
Esse dado ajuda a afastar a leitura de que o crescimento do setor é explicado principalmente por itens de luxo. Embora existam produtos premium, hospedagens especializadas, planos e serviços sofisticados, a maior parte da movimentação está ligada a necessidades permanentes dos animais.
Depois da alimentação, aparecem segmentos como venda de animais por criadores, produtos veterinários e serviços veterinários. Em 2025, produtos veterinários representaram cerca de R$ 8,2 bilhões, enquanto os serviços veterinários ficaram próximos de R$ 8,18 bilhões. São despesas relacionadas a prevenção, tratamento e acompanhamento de saúde.
Para o tutor, isso significa que a decisão de ter um pet envolve uma rotina de pagamentos. Além da compra mensal de ração, há vermifugação, vacinação, antipulgas, consultas, exames, medicamentos e, em muitos casos, banho e tosa frequentes. Em famílias com mais de um animal, esse custo se multiplica.
Conta dos pets disputa espaço no orçamento
Uma pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box mostrou que 65% dos tutores brasileiros dizem estar dispostos a investir o que for preciso com seus pets. O levantamento também apontou que 52% já priorizaram o orçamento do animal em relação a outras necessidades pessoais.
O mesmo estudo indicou que 56% dos tutores gastam até R$ 300 por mês com animais de estimação. Para 48%, a despesa representa até 5% da renda mensal. Para outros 31%, o gasto fica entre 6% e 10% da renda. Esses percentuais mostram que o pet entrou de forma concreta no planejamento financeiro doméstico.
Estimativas do Instituto Pet Brasil e da Abinpet apontam que manter um cachorro custa, em média, R$ 431,40 por mês no país. O valor varia conforme o porte: R$ 346,50 para cães pequenos, R$ 410,02 para cães médios e R$ 593,50 para cães grandes. Para gatos adultos, o custo médio mensal estimado é de R$ 258,40.
A diferença entre portes ajuda a explicar por que a alimentação tem tanto peso. Animais maiores consomem mais ração, exigem doses maiores de medicamentos e podem gerar custos mais altos em banhos, transporte e procedimentos veterinários. Já gatos costumam ter despesas menores, mas também exigem alimentação adequada, areia sanitária, vacinação e acompanhamento de saúde.
Gasto cresceu e ficou mais diversificado
O aumento da presença dos pets nos lares brasileiros acompanha mudanças sociais e familiares. Estudos acadêmicos da Esalq/USP indicam que, enquanto o número de filhos por família caiu nas últimas décadas, a quantidade de animais de estimação cresceu. Estimativas setoriais apontam que o Brasil tem entre 150 milhões e 160 milhões de pets.
A composição da despesa também mudou. No início dos anos 2000, quase todo o orçamento destinado aos animais era concentrado em ração e saúde. Em 2017 e 2018, esses itens ainda eram predominantes, mas passaram a dividir espaço com higiene, hospedagem, certificação de raças, planos de saúde e outros serviços.
Segundo a pesquisa da Esalq/USP, o valor médio mensal por domicílio destinado aos pets passou de R$ 8,31 em 2002 e 2003 para R$ 20,42 em 2017 e 2018. O dado considera bases históricas de orçamento familiar e mostra uma mudança gradual, anterior ao salto observado no mercado depois de 2020.
A pandemia acelerou a convivência entre famílias e animais dentro de casa, mas o movimento não se limita àquele período. A humanização dos pets, a ampliação da rede de clínicas, a oferta de serviços especializados e a digitalização das compras consolidaram uma nova rotina de consumo.
Mercado cresce, mas sente pressão de custos
Apesar do faturamento bilionário, o setor enfrenta um cenário mais desafiador. A Abempet aponta inflação, câmbio, desaceleração do consumo e alta carga tributária como fatores que pressionam empresas e consumidores. No caso do pet food, ingredientes como milho, soja, farinhas e proteínas sofrem influência de preços de commodities e do dólar.
Essa pressão ajuda a explicar por que a pergunta sobre gasto precisa ser qualificada. O brasileiro pode estar desembolsando mais em reais sem, necessariamente, levar mais produtos para casa. Parte do crescimento do faturamento pode refletir reajustes de preços em itens essenciais.
O varejo pet também passa por transformação. Pequenos e médios pet shops seguem relevantes, especialmente nas compras de bairro e nos serviços recorrentes. Ao mesmo tempo, clínicas, hospitais veterinários, megastores e e-commerce disputam a fidelização do tutor, principalmente em categorias de compra frequente.
A consolidação de grandes redes mostra a importância econômica do setor. A fusão entre Petz e Cobasi, aprovada pelo Cade com restrições em dezembro de 2025, envolveu dois dos maiores grupos do varejo especializado e exigiu desinvestimento de 26 lojas no estado de São Paulo para preservar a concorrência.
Para as famílias, o cenário combina vínculo afetivo e decisão financeira. Ter um pet hoje significa incluir no orçamento uma despesa contínua, com itens básicos e serviços de saúde que não costumam ser adiáveis. Para o mercado, o desafio é manter crescimento em um ambiente de custos altos e consumo mais seletivo.
O resultado é um setor ainda robusto, mas menos acelerado. Os pets se consolidaram como parte da casa e da rotina de consumo dos brasileiros. A conta, porém, ficou mais visível: ela pesa no bolso, exige planejamento e mostra que cuidar de um animal deixou de ser apenas uma escolha afetiva para se tornar também uma responsabilidade econômica permanente.
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