Cardiopatias podem evoluir sem sinais claros; check-ups, atenção à respiração e diagnóstico precoce ajudam a proteger cães e gatos ao longo da vida.
01 de Setembro de 2026 às 17h16

Setembro Vermelho reforça cuidados com o coração de cães e gatos

Cardiopatias podem evoluir sem sinais claros; check-ups, atenção à respiração e diagnóstico precoce ajudam a proteger cães e gatos ao longo da vida.

O Setembro Vermelho amplia o alerta para um problema que também faz parte da rotina veterinária: doenças cardiovasculares podem atingir cães e gatos, permanecer silenciosas por meses ou anos e só provocar sinais perceptíveis quando já existem alterações importantes no coração ou na circulação. Por isso, a principal mensagem da campanha é observar o animal, manter consultas periódicas e investigar alterações encontradas durante o exame clínico.

Na medicina veterinária, falar em prevenção cardíaca não significa que todas as cardiopatias possam ser evitadas. Algumas têm forte componente genético, enquanto outras estão relacionadas ao envelhecimento e à degeneração natural de estruturas do coração. Nesses casos, o acompanhamento preventivo busca principalmente identificar a doença antes da insuficiência cardíaca, acompanhar sua evolução e reduzir o risco de complicações.

As doenças cardíacas mais frequentes em cães e gatos

Entre os cães, a doença mixomatosa da valva mitral é a cardiopatia mais comum. Ela representa aproximadamente três quartos das doenças cardiovasculares diagnosticadas na espécie e aparece com maior frequência em animais idosos e de pequeno porte. Com o tempo, a valva perde a capacidade de fechar adequadamente e parte do sangue retorna para o átrio esquerdo, produzindo o chamado sopro cardíaco.

Ter um sopro, porém, não significa necessariamente que o cão esteja em insuficiência cardíaca. Muitos animais permanecem sem sintomas durante anos. O ecocardiograma e outros exames permitem avaliar se houve aumento das câmaras cardíacas e definir o estágio da doença. Essa diferenciação é importante porque há cães em fases ainda assintomáticas que já precisam de acompanhamento mais próximo e, em situações específicas, de tratamento indicado pelo médico-veterinário.

Outra doença relevante nos cães é a cardiomiopatia dilatada, caracterizada pela redução da capacidade de contração do músculo cardíaco e pela dilatação das câmaras do coração. Ela ocorre principalmente em cães de médio, grande e gigante porte e tem predisposição reconhecida em algumas raças, como Dobermann, Boxer e Dogue Alemão. Arritmias podem aparecer antes mesmo de sinais evidentes de insuficiência cardíaca.

A dirofilariose, conhecida como “verme do coração”, também merece atenção, especialmente em áreas onde há circulação do parasita e presença do mosquito transmissor. A infecção por Dirofilaria immitis afeta principalmente as artérias pulmonares e pode provocar doença vascular, hipertensão pulmonar e, nos quadros avançados, sobrecarga do lado direito do coração. A prevenção deve ser definida pelo médico-veterinário de acordo com o risco epidemiológico do animal.

Nos gatos, a cardiomiopatia hipertrófica é a doença cardíaca mais diagnosticada. Nela, as paredes do ventrículo esquerdo tornam-se mais espessas, prejudicando o relaxamento e o enchimento do coração. Estudos indicam que a alteração pode atingir uma parcela expressiva da população felina, embora a maioria dos casos permaneça sem manifestações clínicas durante longos períodos.

Raças como Maine Coon, Ragdoll, British Shorthair e Sphynx apresentam predisposição conhecida, mas a doença também ocorre em gatos sem raça definida. Além disso, hipertensão arterial e hipertireoidismo podem produzir alterações semelhantes no músculo cardíaco, o que torna necessária uma avaliação completa antes de se concluir que o animal apresenta uma cardiomiopatia primária.

Respiração, desmaios e cansaço estão entre os sinais de alerta

Nos cães, tosse, redução da disposição para caminhadas e brincadeiras, respiração mais rápida, dificuldade para respirar, fraqueza, episódios de desmaio e aumento do volume abdominal estão entre os sinais que justificam avaliação veterinária. A tosse, entretanto, não confirma uma doença do coração: problemas respiratórios são causas frequentes do sintoma, principalmente em cães idosos, e os exames ajudam a estabelecer sua origem.

Nos gatos, os sinais costumam ser ainda mais discretos. Apatia, menor interesse por atividades, redução do apetite e respiração acelerada podem ser as primeiras alterações percebidas. Diferentemente do que ocorre nos cães, gatos com insuficiência cardíaca raramente apresentam tosse como manifestação predominante. Respiração difícil ou com a boca aberta deve ser considerada uma situação de urgência.

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Uma medida simples que pode ajudar o tutor é observar a frequência respiratória enquanto o animal está realmente dormindo ou descansando, sem estar ofegante por calor, medo ou exercício. Uma frequência persistentemente superior a cerca de 35 movimentos respiratórios por minuto merece contato com o médico-veterinário, especialmente quando representa uma mudança em relação ao padrão habitual do pet. O número funciona como referência de triagem e não substitui o exame clínico.

Há ainda sinais que exigem atendimento imediato. Dificuldade intensa para respirar, mucosas azuladas ou arroxeadas, colapso, perda de consciência e fraqueza súbita devem levar o animal a um serviço veterinário sem demora. Nos gatos, dor intensa acompanhada de perda repentina dos movimentos de uma ou das duas patas traseiras pode indicar tromboembolismo arterial, uma complicação grave associada principalmente às cardiomiopatias.

Check-up pode revelar alterações antes dos primeiros sintomas

A consulta de rotina começa por procedimentos simples, mas importantes. A auscultação com estetoscópio permite identificar sopros, alterações do ritmo e sons cardíacos anormais. O profissional também avalia pulsos, frequência cardíaca, padrão respiratório, coloração das mucosas e outros achados que podem indicar a necessidade de investigação complementar.

A auscultação, contudo, não detecta todas as doenças. Isso é particularmente importante nos gatos: alguns apresentam cardiomiopatia sem sopro, enquanto outros podem ter sopro sem uma alteração estrutural significativa do coração. Por essa razão, idade, raça, histórico familiar, sintomas e achados do exame físico são considerados em conjunto para decidir quais testes serão necessários.

O ecocardiograma é um dos principais exames da cardiologia veterinária. Por meio do ultrassom, ele permite observar câmaras cardíacas, espessura do músculo, funcionamento das valvas, capacidade de contração e características do fluxo sanguíneo. É considerado o exame de referência para confirmar a cardiomiopatia hipertrófica felina e tem papel central na avaliação da doença valvar e da cardiomiopatia dilatada em cães.

O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do coração e é especialmente útil na investigação de arritmias. Quando a alteração ocorre de forma intermitente, pode ser indicado o monitoramento por Holter durante várias horas. Radiografias do tórax ajudam a verificar o tamanho e o formato da silhueta cardíaca e, principalmente, a procurar sinais de congestão pulmonar ou outras doenças respiratórias.

Dependendo do paciente, o veterinário também pode solicitar aferição da pressão arterial, exames laboratoriais e biomarcadores cardíacos, como o NT-proBNP e a troponina. Em gatos, investigar função renal, pressão arterial e tireoide pode ser fundamental. Esses testes fornecem informações complementares e não devem ser interpretados isoladamente.

Prevenção também significa conhecer o risco de cada animal

Para cães e gatos adultos sem alterações conhecidas, a avaliação clínica pelo menos uma vez ao ano é uma referência usual. Animais idosos, pacientes que já apresentam sopro ou arritmia e indivíduos de raças predispostas podem precisar de consultas e exames em intervalos menores. A frequência deve ser determinada individualmente pelo médico-veterinário.

Filhotes também precisam ter o coração auscultado nas consultas iniciais. Embora menos frequentes que as doenças adquiridas, alterações congênitas, como persistência do ducto arterioso e defeitos nas estruturas cardíacas, podem estar presentes desde o nascimento. Identificá-las cedo pode fazer diferença na escolha do tratamento e no prognóstico.

Em casa, manter o peso adequado, oferecer alimentação completa e equilibrada, estimular atividade física compatível com a idade e as condições do pet e cumprir a prevenção contra parasitas indicada para a região fazem parte dos cuidados gerais. Suplementos, mudanças radicais de dieta e medicamentos para o coração não devem ser oferecidos sem orientação profissional.

O ponto central do Setembro Vermelho é que esperar o aparecimento de sintomas pode significar descobrir uma cardiopatia já em estágio avançado. A consulta periódica permite encontrar sopros, arritmias e outros indícios enquanto o animal ainda parece saudável. Para cães e gatos, cuidar do coração também é observar mudanças sutis, conhecer os fatores de risco e transformar o acompanhamento veterinário em parte da rotina ao longo de toda a vida.

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