Decisão da Conitec se baseia em análise de custo-efetividade do imunizante para o sistema público de saúde
13 de Janeiro de 2026 às 16h52

SUS não incorpora vacina contra herpes-zóster para idosos e imunocomprometidos

Decisão da Conitec se baseia em análise de custo-efetividade do imunizante para o sistema público de saúde

O Sistema Único de Saúde (SUS) decidiu não incorporar a vacina contra herpes-zóster, conhecida popularmente como cobreiro. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União e refere-se ao imunizante recombinante adjuvado, que foi avaliado para uso em idosos a partir de 80 anos e em pessoas imunocomprometidas a partir de 18 anos.

A conclusão foi tomada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que é responsável por avaliar evidências científicas, impacto orçamentário e custo-efetividade de vacinas, medicamentos e procedimentos antes de sua possível oferta na rede pública.

De acordo com a portaria, a vacina não será incorporada ao SUS nas indicações analisadas, mas o tema poderá ser reavaliado no futuro, caso novos dados sejam apresentados que possam alterar o resultado da análise.

A vacina contra herpes-zóster foi desenvolvida para prevenir a reativação do vírus varicela-zóster, responsável pela catapora. Após a infecção inicial, o vírus permanece latente no organismo e pode se manifestar novamente, especialmente em pessoas mais velhas ou com sistema imunológico comprometido.

O imunizante avaliado pela Conitec é o único disponível no Brasil atualmente e é considerado um avanço em relação às versões anteriores. Segundo Renato Kfouri, infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, “as vacinas mais antigas tinham eficácia menor, em torno de 50% a 60%, e proteção de curta duração, com pior desempenho nos mais velhos”.

“A vacina recombinante mudou esse cenário: ela tem eficácia em torno de 90%, independentemente da idade, inclusive no idoso.”

O herpes-zóster é mais frequente com o avanço da idade e em pessoas com o sistema imunológico comprometido. Além das lesões na pele, a doença pode evoluir para a neuralgia pós-herpética, uma dor crônica intensa que pode durar meses ou até anos após a infecção.

“Não é à toa que a vacina é licenciada de forma rotineira a partir dos 50 anos e indicada, em alguns casos, desde os 18 para pessoas imunocomprometidas”, afirma Kfouri.

Estudos recentes indicam que a vacinação pode trazer efeitos indiretos ao evitar a reativação repetida do vírus varicela-zóster. Uma meta-análise internacional apresentada em 2025 no Congresso Europeu de Cardiologia observou que pessoas vacinadas contra herpes-zóster tiveram menor incidência de eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), em comparação com não vacinados.

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Outro estudo de grande repercussão, publicado na revista científica Nature, analisou mais de 280 mil adultos no Reino Unido e encontrou menor frequência de novos diagnósticos de demência entre pessoas que receberam a vacina contra herpes-zóster ao longo de um seguimento de sete anos.

Apesar do reconhecimento da importância clínica do imunizante, a incorporação ao SUS envolve uma análise mais ampla, que vai além da eficácia. Kfouri explica que “a discussão não é se a vacina funciona — ela funciona muito bem. O ponto central é custo-efetividade, impacto orçamentário e como hierarquizar prioridades dentro do Programa Nacional de Imunizações”.

Atualmente, a vacina contra herpes-zóster não faz parte do Programa Nacional de Imunizações e está disponível apenas na rede privada, com custo médio de R$ 900 a R$ 1.200 por dose. O esquema completo exige duas doses, totalizando até R$ 2.400, variando conforme a clínica e a região.

O Ministério da Saúde informou que a Conitec emitiu um parecer final desfavorável à incorporação da vacina, reconhecendo sua relevância clínica, mas considerando que não é custo-efetiva nas condições avaliadas, com um impacto orçamentário estimado superior a R$ 5,2 bilhões em cinco anos.

Para efeito de comparação, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular somaram R$ 4,2 bilhões no ano passado, um valor inferior ao custo projetado apenas para a incorporação da vacina contra herpes-zóster.

O ministério afirmou que até o momento o laboratório responsável não apresentou nova proposta, mas que tem interesse na incorporação da vacina e seguirá em negociação para buscar um preço compatível com a disponibilidade orçamentária do SUS.

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