Estudo com 2.613 entidades mostra superlotação em abrigos, baixa transparência e falta de apoio público e privado, apesar do mercado pet bilionário.
09 de Fevereiro de 2026 às 15h19

Relatório da FEBRACA revela fragilidade das ONGs de causa animal

Estudo com 2.613 entidades mostra superlotação em abrigos, baixa transparência e falta de apoio público e privado, apesar do mercado pet bilionário.

A Federação Brasileira da Causa Animal (FEBRACA) lançou o primeiro Relatório de Impacto da Causa Animal no Brasil, consolidando dados auditados de 2.613 ONGs ativas. O documento destaca o contraste com o mercado pet brasileiro, terceiro maior do mundo e projetado para faturar R$ 77 bilhões em 2025, enquanto entidades de proteção enfrentam informalidade, falta de recursos e superlotação crônica.

Diagnóstico de vulnerabilidades estruturais

O levantamento aponta que 82,2% das instituições operam sem colaboradores remunerados, sustentadas por voluntariado. Entre esses voluntários, cerca de 70% atuam sem contratos formais, o que aumenta riscos legais e fragiliza a gestão.

Outro obstáculo para a credibilidade e a captação é a transparência: 61% das organizações não possuem portais com relatórios financeiros ou de atividades. Ao mesmo tempo, a falta de recursos financeiros aparece como o principal entrave para 76,1% das ONGs, mantendo um ciclo de precariedade que limita expansão e profissionalização.

Isolamento financeiro e dependência de doações

O relatório indica isolamento severo na relação com financiadores e poder público. Segundo os dados, 79% nunca firmaram parcerias com empresas privadas, 73% não têm convênios públicos e 72% relatam zero emendas parlamentares.

Doações esporádicas de pessoas físicas sustentam 62% das operações, mas 78,1% das instituições preferem verbas financeiras para cobrir custos veterinários e estruturais, sinalizando que doações em itens nem sempre resolvem as despesas mais críticas.

Crise operacional nos abrigos

A pressão operacional aparece com força nos abrigos, que operam em média a 135% da capacidade, em superlotação constante. Apenas 56,1% das ONGs realizam de 1 a 5 adoções mensais, produzindo um giro considerado ineficiente: para cada 3 animais que entram, apenas 1 sai.

Em 2024, o relatório registra 30 milhões de cães e gatos abandonados, sendo 20,2 milhões de cães e 10 milhões de gatos. Desse total, 185 mil animais estavam em abrigos, com ampla predominância de cães.

Abandono e abrigamento de cães e gatos no Brasil (2024):

Categoria Cães Gatos Total
Abandonados 20,2 milhões 10 milhões 30,19 milhões
Em abrigos 177,6 mil 7,4 mil 185 mil

Metodologia científica e dados auditados

Diferente de estimativas anteriores, o relatório cruzou dados via API da Receita Federal, filtrando OSCs ativas por CNAE de proteção animal. A proposta é oferecer uma base mais confiável para políticas públicas e investimentos estratégicos.

Sucessos da profissionalização

Como exemplo de viabilidade, o programa Mentora Pet da FEBRACA reporta que participantes aumentaram a receita em 255% e triplicaram parceiros em 5 meses. Para a entidade, a iniciativa demonstra que gestão, métricas e rede de apoio podem acelerar sustentabilidade e impacto.

ESG corporativo e mercado pet

Patrocinado pela Mars Pet Nutrition, o relatório é apresentado como insumo para agendas ESG e advocacy. O documento também aponta recortes do setor pet para 2025, como pet food em R$ 40,82 bilhões e veterinária em R$ 8,1 bilhões, destacando que o crescimento sustentável depende de uma rede de proteção mais estável, apesar de desafios econômicos, como juros elevados.

Perspectivas e chamado à ação

A FEBRACA afirma que usará o diagnóstico para ampliar mentorias e defender incentivos fiscais, como dedução no Imposto de Renda, com potencial de mobilizar R$ 1 bilhão anuais. A versão pública do relatório deve ser divulgada em breve nas redes da federação, e o mapeamento permanece aberto, reforçando a causa animal como parte estruturante do ecossistema pet no Brasil.

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