Relatório da FEBRACA revela fragilidade das ONGs de causa animal
Estudo com 2.613 entidades mostra superlotação em abrigos, baixa transparência e falta de apoio público e privado, apesar do mercado pet bilionário.
A Federação Brasileira da Causa Animal (FEBRACA) lançou o primeiro Relatório de Impacto da Causa Animal no Brasil, consolidando dados auditados de 2.613 ONGs ativas. O documento destaca o contraste com o mercado pet brasileiro, terceiro maior do mundo e projetado para faturar R$ 77 bilhões em 2025, enquanto entidades de proteção enfrentam informalidade, falta de recursos e superlotação crônica.
Diagnóstico de vulnerabilidades estruturais
O levantamento aponta que 82,2% das instituições operam sem colaboradores remunerados, sustentadas por voluntariado. Entre esses voluntários, cerca de 70% atuam sem contratos formais, o que aumenta riscos legais e fragiliza a gestão.
Outro obstáculo para a credibilidade e a captação é a transparência: 61% das organizações não possuem portais com relatórios financeiros ou de atividades. Ao mesmo tempo, a falta de recursos financeiros aparece como o principal entrave para 76,1% das ONGs, mantendo um ciclo de precariedade que limita expansão e profissionalização.
Isolamento financeiro e dependência de doações
O relatório indica isolamento severo na relação com financiadores e poder público. Segundo os dados, 79% nunca firmaram parcerias com empresas privadas, 73% não têm convênios públicos e 72% relatam zero emendas parlamentares.
Doações esporádicas de pessoas físicas sustentam 62% das operações, mas 78,1% das instituições preferem verbas financeiras para cobrir custos veterinários e estruturais, sinalizando que doações em itens nem sempre resolvem as despesas mais críticas.
Crise operacional nos abrigos
A pressão operacional aparece com força nos abrigos, que operam em média a 135% da capacidade, em superlotação constante. Apenas 56,1% das ONGs realizam de 1 a 5 adoções mensais, produzindo um giro considerado ineficiente: para cada 3 animais que entram, apenas 1 sai.
Em 2024, o relatório registra 30 milhões de cães e gatos abandonados, sendo 20,2 milhões de cães e 10 milhões de gatos. Desse total, 185 mil animais estavam em abrigos, com ampla predominância de cães.
Abandono e abrigamento de cães e gatos no Brasil (2024):
| Categoria | Cães | Gatos | Total |
|---|---|---|---|
| Abandonados | 20,2 milhões | 10 milhões | 30,19 milhões |
| Em abrigos | 177,6 mil | 7,4 mil | 185 mil |
Metodologia científica e dados auditados
Diferente de estimativas anteriores, o relatório cruzou dados via API da Receita Federal, filtrando OSCs ativas por CNAE de proteção animal. A proposta é oferecer uma base mais confiável para políticas públicas e investimentos estratégicos.
Sucessos da profissionalização
Como exemplo de viabilidade, o programa Mentora Pet da FEBRACA reporta que participantes aumentaram a receita em 255% e triplicaram parceiros em 5 meses. Para a entidade, a iniciativa demonstra que gestão, métricas e rede de apoio podem acelerar sustentabilidade e impacto.
ESG corporativo e mercado pet
Patrocinado pela Mars Pet Nutrition, o relatório é apresentado como insumo para agendas ESG e advocacy. O documento também aponta recortes do setor pet para 2025, como pet food em R$ 40,82 bilhões e veterinária em R$ 8,1 bilhões, destacando que o crescimento sustentável depende de uma rede de proteção mais estável, apesar de desafios econômicos, como juros elevados.
Perspectivas e chamado à ação
A FEBRACA afirma que usará o diagnóstico para ampliar mentorias e defender incentivos fiscais, como dedução no Imposto de Renda, com potencial de mobilizar R$ 1 bilhão anuais. A versão pública do relatório deve ser divulgada em breve nas redes da federação, e o mapeamento permanece aberto, reforçando a causa animal como parte estruturante do ecossistema pet no Brasil.
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