Estudo revela crescimento do uso de medicamentos agonistas do GLP-1 por puérperas em busca de emagrecimento rápido
19 de Fevereiro de 2026 às 16h12

Aumento na busca por canetas emagrecedoras entre mulheres no pós-parto

Estudo revela crescimento do uso de medicamentos agonistas do GLP-1 por puérperas em busca de emagrecimento rápido

Após o parto, muitas mulheres enfrentam desafios para recuperar o peso que ganharam durante a gestação, um processo que pode levar meses ou até mais de um ano. No entanto, a pressão social para voltar ao corpo anterior tem levado algumas a buscar soluções rápidas. Um estudo publicado na revista JAMA em novembro de 2025 aponta um aumento significativo no uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, entre puérperas que desejam acelerar a perda de peso.

A pesquisa, conduzida por uma equipe de dinamarqueses e canadenses, analisou os registros de nascimentos na Dinamarca entre janeiro de 2018 e junho de 2024, cruzando esses dados com informações do sistema nacional de prescrições médicas. O objetivo era identificar mães que haviam utilizado semaglutida ou liraglutida, dois princípios ativos desses medicamentos, durante os primeiros 182 dias após o parto.

Os resultados revelaram uma mudança expressiva no padrão de uso dessas substâncias ao longo do tempo. Em 2018, menos de cinco mulheres a cada 10 mil partos utilizavam esses medicamentos. Seis anos depois, esse número saltou para 173 por 10 mil nascimentos. Ao todo, mais de 382 mil gestações foram analisadas, das quais 1.549 mulheres recorreram às canetas no pós-parto.

A virada ocorreu em dezembro de 2022, quando a Dinamarca autorizou o uso da semaglutida — princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy — para tratar a obesidade, antes restrito ao tratamento do diabetes tipo 2. “Desde 2023, o uso de agonistas do GLP-1 aumentou drasticamente”, afirma Mette Bliddal, pesquisadora da Universidade do Sul da Dinamarca e autora do estudo. “Observamos que a maioria das mulheres que buscaram o produto em 2023 e 2024 estavam acima do peso antes da gravidez e não tinham histórico de diabetes.”

Esse fenômeno não se limita à Dinamarca. No Brasil, médicos também notam um crescimento na procura por esses medicamentos. O endocrinologista Carlos André Minanni, do Einstein Hospital Israelita, observa que “desde a popularização das medicações agonistas do GLP-1, percebo um aumento da procura por mulheres no pós-parto”, afirmando que a busca é tanto de quem já apresentava sobrepeso ou obesidade antes da gestação quanto de puérperas com Índice de Massa Corporal (IMC) não tão elevado.

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As razões alegadas pelas pacientes variam, mas incluem desconforto com o corpo, medo de não recuperar o peso original, falta de autoestima e um histórico de efeito sanfona, que é a dificuldade de manter o emagrecimento, resultando em novo ganho de peso. Essas questões estão frequentemente ligadas à pressão estética que impõe a magreza como padrão ideal.

Consequentemente, muitas mulheres recorrem a dietas extremas, procedimentos invasivos e uso indevido de medicamentos. “O pós-parto é um período de grande vulnerabilidade física e emocional. A medicalização rápida do peso pode mascarar ansiedade, depressão pós-parto ou padrões de compulsão e restrição”, alerta Minanni.

Ainda há muitas incertezas sobre como os medicamentos GLP-1 interagem com as mudanças hormonais e fisiológicas do puerpério. “Pequenos estudos sugerem que a semaglutida não passa para o leite materno em quantidades mensuráveis, e não foram relatados danos claros nos bebês amamentados”, explica Bliddal. “No entanto, isso não significa que os medicamentos sejam comprovadamente seguros durante a amamentação.”

Os efeitos colaterais conhecidos incluem náusea, vômito, diarreia, constipação, fadiga e dificuldades em manter uma nutrição adequada. Em casos mais raros, pode ocorrer colecistite ou pancreatite. Além disso, a possibilidade de esses medicamentos afetarem a produção de leite materno ou sua composição nutricional ainda não foi totalmente descartada, o que requer cautela.

“Em um cenário de pós-parto sem amamentação ou após o desmame, a discussão sobre o uso pode ser válida, especialmente em casos de obesidade ou sobrepeso com comorbidades”, ressalta o endocrinologista. A decisão deve ser individualizada, levando em conta a gravidade da obesidade, comorbidades, histórico de transtornos alimentares, saúde mental e suporte para mudanças de estilo de vida.

Mais do que simplesmente negar o tratamento com agonistas do GLP-1 às mulheres no puerpério, é essencial acolhê-las. “É fundamental validar as queixas sem endossar pressa, reconhecendo o incômodo sentido por elas, mas lembrando que o pós-parto é uma fase de adaptação temporária”, conclui Minanni. “Esses medicamentos não devem ser vistos como atalhos cosméticos. O tratamento, se realmente necessário, deve ser realizado no momento certo e com o devido acompanhamento médico.”

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