Setor financeiro enfrenta desafios com juros altos, endividamento e guerra no Oriente Médio.
18 de Maio de 2026 às 11h12

Bancos brasileiros aumentam provisões contra calotes em 33%, totalizando R$ 45 bilhões

Setor financeiro enfrenta desafios com juros altos, endividamento e guerra no Oriente Médio.

Os principais bancos do Brasil intensificaram suas provisões para perdas no início deste ano, em resposta ao ciclo restritivo de crédito. O setor financeiro lida com os efeitos da elevação da taxa Selic, que atingiu 15%, resultando em um aumento recorde no endividamento de empresas e famílias.

A situação é ainda mais complicada pela eclosão da guerra no Oriente Médio e pelo aumento nos preços do petróleo, o que retarda a possibilidade de cortes nas taxas de juros pelo Banco Central. Como consequência, instituições como Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco reportaram R$ 44,8 bilhões em despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) no primeiro trimestre deste ano.

Esse montante representa um crescimento de 33% em comparação ao mesmo período do ano anterior, considerando um cálculo que desconsidera valores recuperados de créditos já baixados, proporcionando uma visão mais precisa do provisionamento, conhecido como custo de crédito.

Parte desse aumento é atribuída à regulamentação CMN 4.966, que antecipa o reconhecimento de perdas esperadas e torna mais rigorosa a classificação de risco. Isso pressiona as provisões e os indicadores de inadimplência, enquanto o ambiente macroeconômico também contribui para os ajustes necessários.

“Estamos em um momento de inflexão do ciclo, com o efeito atrasado da política monetária”, afirma Nícólas Merola, analista da EQI Research. Ele prevê que “isso ainda deve causar algum dano ao longo de um período”.

O cenário é especialmente desafiador para o Banco do Brasil, que registrou R$ 18,9 bilhões em custo de crédito entre janeiro e março, um aumento significativo de 86% em relação ao ano passado. Desde meados do ano passado, o banco público enfrenta estresse em sua principal carteira, a do agronegócio, devido à volatilidade nos preços das commodities e eventos climáticos extremos. Em março, a inadimplência rural do Banco do Brasil subiu para 6,22%, comparado a 2,76% um ano antes, segundo o critério de atrasos superiores a 90 dias.

Do total das provisões para perdas esperadas, o agronegócio representou R$ 7,4 bilhões. O banco esperava recuperar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões em créditos, mas conseguiu apenas R$ 1,2 bilhão. Para agravar a situação, também houve um aumento do risco na carteira de pessoas físicas, em virtude do maior endividamento das famílias.

“A carteira do agronegócio, sem dúvida, é a maior responsável pelo risco de crédito. Minha recuperação ainda não pegou tração”, disse Merola. O Banco do Brasil teve uma recuperação de R$ 1,2 bilhão no primeiro trimestre, mas esperava um nível de R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões por trimestre. “As esteiras ainda estão sendo normalizadas. Já nos antecipamos e reforçamos a provisão, principalmente para a carteira de cartão de crédito”, ressaltou Geovanne Tobias, vice-presidente de Gestão Financeira do BB.

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Além do Banco do Brasil, os bancos privados também enfrentaram deterioração nas métricas de qualidade, embora a intensidade da piora tenha variado. O Santander foi o mais afetado, com a taxa de inadimplência subindo 0,6 ponto percentual em 12 meses, alcançando 3,3% no primeiro trimestre, segundo o critério de atrasos superiores a 90 dias. No Bradesco, o aumento foi mais modesto, de 0,1 ponto percentual, enquanto o Itaú manteve seu indicador estável em 1,9%.

Mesmo no Itaú, que se manteve estável, houve um aumento na inadimplência entre micro, pequenas e médias empresas. O fim do período de carência de programas do governo, como o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), impulsionou o indicador de forma mecânica. O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, prevê que a métrica pode avançar de 0,1 a 0,2 ponto percentual à frente.

“Apesar desse aumento observado e absolutamente esperado, os índices permanecem em patamares muito abaixo do que observávamos em anos anteriores, e com a perda esperada e rentabilidade em linha com as expectativas”, destacou Maluhy Filho.

Na carteira de grandes empresas, casos pontuais afetaram o desempenho dos bancos, embora os nomes não tenham sido revelados por questões de sigilo bancário. Contudo, é sabido que companhias como Grupo Pão de Açúcar e Raízen enfrentaram dificuldades e protocolaram recuperação extrajudicial nos últimos meses.

Esses problemas nas carteiras de grandes empresas e PMEs contribuem para o aumento das provisões. No Bradesco, o cenário resultou em um aumento no custo de crédito, que mede a despesa líquida com provisões para perdas de crédito, expressa como percentual da carteira média de empréstimos. O indicador subiu para 3,5% e deve ficar em torno de 3,3% ao longo do ano, conforme os executivos do banco.

Analistas do Citi consideram que esse índice é a principal linha a ser monitorada no Bradesco, já que qualquer retrocesso pode ameaçar a prometida evolução gradual do retorno sobre o patrimônio (RoE). “Nossa percepção é que o custo do risco deve continuar pressionado nos próximos trimestres, uma vez que o crédito para o segmento de varejo de massa deve continuar demandando um volume maior de provisões”, avaliam os analistas.

No Santander, o CEO Mario Leão assegurou que não há uma “preocupação estrutural”, mas afirmou que a instituição está atenta a três carteiras: pequenas empresas, agronegócio e alguns portfólios de cartões. No agronegócio, Leão prevê que 2026 será melhor que 2025, embora ainda não seja um ano bom. Ele está em processo de transição para transferir o cargo para Gilson Finkelsztain, atual CEO da B3.

Em março, a inadimplência total do crédito no Brasil atingiu 4,3%, comparado a 3,3% um ano antes, de acordo com dados mais recentes do Banco Central. Para tentar reverter essa pressão, o governo lançou uma nova versão do programa de renegociações de dívidas, chamado Desenrola. A iniciativa é voltada para trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos podem chegar a 90%, com base em garantias do Fundo Garantidor de Operações (FGO).

O programa foi bem recebido pelos bancos, mas deve ter impacto limitado entre os grandes, conforme mostrou uma reportagem recente. O JPMorgan avalia que as medidas não resolvem a alavancagem de maneira estrutural, mas podem ajudar as instituições financeiras a recuperarem parte dos créditos perdidos. “Acreditamos que o Nubank será o maior vencedor”, conclui o banco americano.

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