Entenda o que são 'redpill' e outros termos de ódio contra mulheres
Movimentos misóginos na internet promovem violência e defendem hierarquia de gênero
Nos últimos anos, grupos de homens têm se organizado em fóruns de internet, redes sociais e outras plataformas de comunicação para propagar hierarquias de gênero e promover o ódio contra as mulheres. Especialistas afirmam que esses espaços e discursos de ódio são combustíveis para ações concretas de violência, como o recente caso de estupro coletivo contra uma adolescente no Rio de Janeiro.
Ativistas e pesquisadores identificam essas ideologias como parte de um fenômeno estrutural conhecido como “misoginia”, que se refere ao ódio contra as mulheres e à defesa da manutenção de privilégios históricos – sociais, culturais, econômicos e políticos – para os homens.
Os grupos misóginos utilizam códigos comuns para se comunicar e disseminar suas ideias. Com uma estratégia de falsa equivalência, eles empregam o termo “misandria” para caracterizar um suposto movimento de ódio e preconceito contra homens. Afirmam, por exemplo, que o feminismo e as leis de proteção à mulher são formas institucionalizadas de destruição da masculinidade.
Em resposta ao feminismo, que busca a igualdade de direitos e oportunidades, esses grupos adotam o “masculinismo”, um conjunto de ideologias que defende uma “masculinidade tradicional”, com direitos diferenciados para homens e mulheres.
A feminista e ativista Lola Aronovich, que criou o blog “Escreva Lola Escreva” em 2008, tem sido alvo de ataques misóginos na internet. Sua luta resultou na prisão de um dos agressores e na criação da Lei nº 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade pela investigação de conteúdos misóginos online.
Lola observa que os agressores compartilham um perfil semelhante. “Desde o começo do meu blog, percebi que são homens héteros, de extrema direita. Todos apoiam lideranças como Bolsonaro e Trump. Esses homens sempre carregam um combo de preconceitos. Não são apenas machistas. São também racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos, capacitistas”, afirma.
Além disso, é importante conhecer algumas palavras e expressões comuns utilizadas por esses grupos misóginos na internet:
- Machosfera: termo que abrange fóruns, canais de YouTube, grupos de WhatsApp e perfis em redes sociais que promovem a masculinidade tóxica e o ódio às mulheres.
- Chans: fóruns anônimos frequentemente utilizados para discursos extremistas e ataques coordenados contra mulheres.
- Incels: abreviação de “involuntary celibates” (celibatários involuntários), homens que se sentem ressentidos e culpam as mulheres por não conseguirem parceiras sexuais ou românticas.
- Redpill: termo inspirado no filme Matrix, onde o protagonista toma uma pílula vermelha que o faz “despertar” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens.
- MGTOW (Men Going Their Own Way): homens que defendem o afastamento total de relacionamentos com mulheres, alegando que as leis e a sociedade moderna são injustas com o sexo masculino.
- Pick Up Artists (PUA): homens que utilizam técnicas de manipulação para obter sexo, tratando mulheres como objetos ou prêmios a serem conquistados.
- Tradwife: mulheres que defendem o retorno a papéis tradicionais de gênero, onde seriam exclusivamente donas de casa e submissas aos maridos.
Os arquétipos e hierarquias criados por esses grupos também são preocupantes:
- Blackpill: enquanto o redpill defende que o homem deve agir, o blackpill afirma que o destino de um homem é determinado exclusivamente pela sua genética.
- Bluepill: termo pejorativo para homens que acreditam na igualdade de gênero ou que buscam relacionamentos saudáveis.
- Chad: homem considerado geneticamente perfeito e atraente, visto como o único tipo desejado pelas mulheres.
- Alfa: idealização do homem dominante, líder e bem-sucedido, que pode ser alcançado por esforço.
- Beta: homem comum, visto como submisso e ridicularizado por ser utilizado apenas por estabilidade financeira.
- Sigma: homem que não precisa de validação social e foca apenas em seu próprio sucesso.
- Stacy: contraparte feminina do Chad, descrita como extremamente atraente e de alto status social.
- White Knight: termo para homens que defendem mulheres ou causas feministas apenas como estratégia para obter atenção feminina.
- Becky: mulher considerada de aparência mediana, situada abaixo da Stacy na hierarquia visual.
Além disso, expressões ofensivas e gírias como “depósito”, que se refere às mulheres como meros recipientes para o prazer masculino, e a teoria pseudocientífica “80/20”, que afirma que 80% das mulheres competem por apenas 20% dos homens, são comuns nesses círculos. A crença na hipergamia, que sugere que as mulheres buscam apenas parceiros de status superior, e a sigla AWALT, que estereotipa comportamentos femininos, também são amplamente disseminadas.
Veja também: